quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Um Flamengo Pra Chamar de Seu.

   Sinto saudades de bons textos sobre futebol, que falta sinto de Sandro Moreira, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues e tantos outros. Futebol tem estado muito chato, mas de vez em quando surge algo ao meu gosto saudosista. O Flamengo bem que merece algo do seu tamanho, esse time tem enchido nossos olhos. Veja que preciosidade que encontrei na web, no Blog do Zuca Kfouri  



Por FRED SOARES - Jornalista carioca, apaixonado por samba e pelo Flamengo, que ainda sonha ver uma sociedade edificada nas bases do amor, tolerância, solidariedade e humanismo.

 
Afora caos político sofrido na pele por cada um dos cidadãos cariocas – independentemente da condição social -, o Rio de Janeiro ainda oferece histórias e situações dignas do tradicional DNA bem-humorado da cidade. Historiadores, sociólogos e intelectuais afins estão diante de um case daqueles de encher os olhos e que, portanto, merecia uma apurada observação sob a perspectiva do registro para a posteridade. Explico: enorme parcela do lado rubro-negro da Guanabara demonstra estar diante da maior perspectiva de êxtase pela qual jamais passou.



    Jovens torcedores na casa dos 25, 30 anos (ou menos) cresceram ouvindo de seus pais e avós todas as histórias envolvendo o esquadrão liderado por Zico. É bem capaz de que muitos dos que vivenciaram aquela Era até tenham exagerado nos relatos com o legítimo objetivo de criar na mente de seus herdeiros a mística que está absolutamente associada à história do clube. O resultado de tudo isso foi que, apesar de algumas conquistas nacionais e uma internacional em todo este período, essa geração mais nova nunca esteve plenamente satisfeita. Faltava-lhe um time que pudesse chamar de seu. Uma equipe que, além da conquista, proporcionasse o encanto que servisse de catalisador para a manifestação plena do jeito rubro-negro de ser.

A primeira parte deste filme – que pode se transformar num épico – está em pleno andamento. Tudo graças a, quem diria, um português. Alguém que naturalmente pela sua nacionalidade teria uma relação com um dos rivais do Flamengo foi o indutor de uma forma de jogar que, sem dúvida, não se vê desde 1987, ano da última conquista nacional de Zico com a sua segunda pele. Jorge Jesus, para muitos, é um revolucionário.
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Torcedora orando.

   Mas, a rigor, faz o que se espera de qualquer treinador minimamente competente: fazer valer ao máximo o talento individual dos atletas a partir de um plano de jogo coletivo bem articulado e competitivo. Houve quem desdenhasse da chegada do português. Desde torcedores, profissionais do futebol e até mesmo jornalistas. Estes últimos, inclusive, com um agravante: assumiram a condição de porta-vozes de um movimento de reserva de mercado que visa a manter incólumes treinadores que se entregaram à zona de conforto e que, por tabela, arrastam o futebol brasileiro no mesmo caminho.
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Jorge Jesus posa para a foto no Ninho do Urubu. Técnico assinou contrato de um ano.
Foto: Alexandre Vidal / Flamengo / LANCE!

Depois de um começo um tanto turbulento (algo natural dentro de um processo de reinício de trabalho), o Flamengo de Jorge Jesus deu liga. Ultrapassou etapas na Copa Libertadores, obteve resultados que levaram o Flamengo à ponta da Série A, mas tudo isso sob o signo de uma arte que parecia esquecida no fundo de alguma gaveta: a arte de bem jogar o futebol. Algo tão intrínseco ao futebol brasileiro que chega a surpreender a reação de alguns que aponta tal performance como algo que represente uma novidade. A conseqüência disso é um sentimento a que há algumas décadas o Rio de Janeiro não assistia.
O torcedor Juan, de 2 anos, ergueu a camisa do Flamengo e rodopiou em pleno Maracanã
O torcedor Juan, aos 2 anos, ergueu a camisa do Flamengo e rodopiou em pleno Maracanã Foto: Ivo Gonzalez / Ivo Gonzalez
    Nos últimos dois meses, cresceu absurdamente o número de camisas do Flamengo passeando pelas ruas da cidade (não foi à toa que uma carga solicitada de 200 mil exemplares foi rapidamente esgotada, a ponto de o clube solicitar uma nova leva de 400 mil uniformes).

Lotar o Maracanã virou uma rotina que nem no tempo de Zico era corriqueira, ainda mais num estádio onde cabiam 200 mil torcedores. Até no mundo virtual, o boom se manifesta. O rubro-negro lidera o número de menções no Twitter, deixando para trás potências europeias como Manchester United, Barcelona, Real Madrid e Juventus. São elementos mais do que suficientes para justificar este ambiente de euforia; no entanto, falamos de esporte, um mundo em que tudo pode acontecer. Até o triunfo máximo.

Cabe ao clube manter o equilíbrio, o chamado gelo no sangue; e ao torcedor manter acesa essa luz que pode acabar por proporcionar o mais iluminado ano rubro-negro depois de 1981, o que vai permitir o surgimento de uma nova geração de filhos e netos flamenguistas.

Sentimento de Eternidade.

Tenho 61 anos, mas, por dentro, no mais profundo do meu ser, muitas vezes não me sinto com essa idade. Não falo apenas da vitalidade do corp...